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Tag Archives: repressão

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Em coletânea sobre movimentos de 2011, geógrafo e urbanista sustenta: “nas praças do mundo, nossos corpos mostraram que uma era está acabando”

Por David Harvey* | Tradução: João Alexandre Peschanski


Sobre o tema: leia, em nosso blog, a apresentação de Occupy — o livro da Editora Boitempo em que estão publicados o texto abaixo e mais onze, sobre os movimentos rebeldes de 2011; para comprá-lo (88 páginas, R$ 10, clique aqui).

O Partido de Wall Street controlou os Estados Unidos sem dificuldades por tempo demais. Controlou totalmente (em contraste com parcialmente) as políticas dos presidentes por pelo menos quatro décadas (para não dizer mais), independentemente de se algum presidente individual foi ou não seu agente por vontade própria. Corrompeu legalmente o Congresso por meio da dependência covarde de políticos dos dois partidos em relação ao poder do dinheiro e ao acesso à mídia comercial que controla. Graças a nomeações feitas e aprovadas pelos presidentes e Congresso, o Partido de Wall Street domina muito do aparato estatal e do Judiciário, em especial a Suprema Corte, cujas decisões estão crescentemente a favor dos interesses venais do dinheiro, em esferas tão diversas quanto eleitoral, trabalhista, ambiental e comercial.

O Partido de Wall Street tem um princípio universal de dominação: não pode haver qualquer adversário sério ao poder absoluto do dinheiro de dominar absolutamente. E esse poder é para ser exercido com um único objetivo. Os detentores do poder do dinheiro não devem apenas ter o privilégio de acumular riqueza sem fim a seu gosto, mas também de herdar o planeta, tomando direta ou indiretamente o domínio da Terra, todos os seus recursos e as potencialidades produtivas que nela residem. O resto da humanidade se torna nessa visão supérfluo.

Esses princípios e práticas não surgem da ganância individual, falta de horizonte ou abusos (por mais que todos esses ocorram aos montes). Esses princípios se formaram no corpo político de nosso mundo por meio da vontade coletiva de uma classe capitalista instigada pelas leis coercivas da competição. Se meu grupo de pressão gasta menos do que o seu, então receberei menos favores. Se esse departamento gasta para atender às necessidades das pessoas, então se torna menos competitivo.

Muitas pessoas decentes estão presas a um sistema que está completamente podre. Se querem ter um salário razoável, não têm outra opção além de se render à tentação do diabo: só estão “seguindo ordens”, como Eichmann disse, “fazendo o que o sistema pede”, como se diz hoje em dia, aceitando os princípios e práticas bárbaras e imorais do Partido de Wall Street. As leis coercivas da competição nos forçam todos, em diferentes níveis, a obedecer às regras desse sistema cruel e insensível. O problema é sistêmico, não individual.

Os ideais de liberdade e autonomia do partido, a serem garantidos pelos direitos à propriedade privada, livre-mercado e livre-comércio, se traduzem na realidade pelo direito de explorar o trabalho alheio, de despossuir as pessoas de seus bens a seu bel prazer e a liberdade de saquear o meio ambiente para seus benefícios individuais ou de classe.

No controle do aparato estatal, o Partido de Wall Street geralmente privatiza todos os ramos de atividade interessantes, abaixo do valor de mercado, para abrir novas frentes para a acumulação do capital. Arranja esquemas de subcontratação (do qual o complexo militar industrial é um exemplo claro) e de tributação (subsídios ao agronegócio e baixos impostos sobre os ganhos do capital) que lhe permitem limpar livremente os cofres públicos. Estimula deliberadamente sistemas regulatórios complicados e níveis surpreendentes de incompetência administrativa no resto do aparato estatal (vide a Agência de Proteção Ambiental sob Reagan e a Agência Federal de Gestão de Emergências sob Bush), de modo a convencer um público inerentemente cético de que o Estado não consegue ter um papel construtivo ou de apoio para melhorar a vida ou as perspectivas futuras das pessoas. Por fim, usa o monopólio da violência, que todo Estado soberano reivindica, para excluir o público do espaço público e para por pressão, vigiar e, se necessário, criminalizar e prender quem não aceitar de modo amplo suas ordens. É exímio nas práticas de tolerância repressiva que perpetuam a ilusão de liberdade de expressão enquanto essa expressão não expuser claramente a natureza verdadeira de seu projeto e o aparato repressivo sobre o qual repousa.

O Partido de Wall Street articula incessantemente a guerra de classes: “Claro que há uma guerra de classes”, disse Warren Buffett, “e é minha classe, os ricos, que a está fazendo e vencendo”. Em grande parte, essa guerra é articulada em segredo, atrás de uma série de máscaras e ilusões pelas quais os planos e objetivos do Partido de Wall Street se escondem.

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O Partido de Wall Street sabe muito bem que quando perguntas políticas e econômicas se transformam em questões culturais, não há como respondê-las. Geralmente aciona uma enorme variedade de opiniões de especialistas cativos, na sua maior parte empregados em institutos de pesquisa e universidades que financia e espalhados na mídia que controla, para criar controvérsias sobre assuntos que de fato não importam e sugerir soluções a perguntas que de fato não existem. Num instante, só fala da austeridade necessária a todas as outras pessoas para tratar do déficit e, num outro, propõe a redução de sua própria tributação sem se importar sobre o impacto no déficit. A única coisa que nunca pode ser debatida ou discutida é a verdadeira natureza da guerra de classes que tem mantido de modo incessante e tão cruel. Descrever algo como “guerra de classes” é, no clima político atual e no julgamento dos especialistas, colocar-se fora do espectro de considerações sérias, sendo chamado de imbecil, senão de sedicioso.

Mas agora pela primeira vez há um movimento explícito que enfrenta o Partido de Wall Street e seu mais puro poder do dinheiro. Wall Street está sendo ocupada — ô, horror dos horrores — por outros! Espalhando-se de cidade em cidade, as táticas doOcupem Wall Street são tomar um espaço público central, um parque ou uma praça, próximo a onde muitos dos bastiões do poder estão localizados, e fazer com que corpos humanos convertam esse lugar de espaço público em uma comunidade de iguais, um lugar de discussão aberta e debate sobre o que esse poder está fazendo e as melhores formas de combater seu alcance. Essa tática, mais conspicuamente presente nas lutas nobres e atuais da praça Tahrir, no Cairo, se alastrou por todo o mundo (praça do Sol, em Madri, praça Syntagma, em Atenas, agora as escadarias de Saint Paul, em Londres, além da própria Wall Street). Mostra como o poder coletivo de corpos no espaço público continua sendo o instrumento mais efetivo de oposição, quando o acesso a todos os outros meios está bloqueado. A praça Tahrir mostrou ao mundo uma verdade óbvia: são os corpos na rua e praças, não o fluxo de sentimentos no twitter ou facebook, que realmente importam.

O objetivo desse movimento nos Estados Unidos é simples. Diz: “Nós, as pessoas, estamos determinadas a retomar nosso país dos poderes do dinheiro, que atualmente o controlam. Nosso objetivo é mostrar que Warren Buffett está enganado. Sua classe, os ricos, não vai mais governar sem oposição e não vai mais herdar automaticamente a Terra. Sua classe, os ricos, não está destinada a sempre vencer”.

Diz “Somos os 99%”. Somos a maioria e essa maioria pode, deve e vai prevalecer. Na medida em que todos os outros canais de expressão estão fechados por causa do poder do dinheiro, não temos outra opção a não ser ocupar os parques, praças e ruas de nossas cidades até que nossas opiniões sejam ouvidas e nossas necessidades atendidas.

Para ter êxito, o movimento precisa alcançar os 99%. Conseguirá e o está fazendo um passo por vez. Primeiro, há todas as pessoas jogadas na miséria pelo desemprego e aquelas que foram ou estão sendo despossuídas de suas casas e bens pela falange de Wall Street. Deve formar grandes coalizões entre estudantes, imigrantes, sub-empregados e todos os que estão ameaçados pelas políticas de austeridade, totalmente desnecessárias e draconianas, impostas sobre a nação e o mundo para atender ao Partido de Wall Street. Deve por o foco nos níveis estarrecedores de exploração nos locais de trabalho — dos empregados domésticos imigrantes que os ricos exploram tão cruelmente em suas casas aos funcionários de restaurantes que são escravizados por quase nada nas cozinhas dos estabelecimentos onde os ricos comem tão copiosamente. Deve unir os trabalhadores criativos e artistas cujos talentos são transformados tantas vezes em produtos comerciais pelo grande poder do dinheiro.

O movimento deve especialmente atingir todos os alienados, os insatisfeitos e os descontentes, todos os que reconhecem e sentem nas entranhas que há algo de muito errado, que o sistema criado pelo Partido de Wall Street criou não só é bárbaro, antiético e moralmente errado, mas também está falido.

Tudo isso tem de ser unido democraticamente em uma oposição coerente, que também tem de contemplar livremente com o que se parecem uma cidade alternativa, um sistema político alternativo e, por fim, uma forma alternativa de organizar a produção, distribuição e consumo para o benefício do povo. Se não o fizer, o futuro para os jovens — que se encaminha para uma crescente dívida privada e austeridade pública profunda, em benefício ao 1% —  não é um futuro.

Em resposta ao movimento Ocupem Wall Street, o Estado, apoiado pelo poder da classe capitalista, tem um argumento surpreendente: ele, e só ele, tem o direito exclusivo de regular e organizar o espaço público. O público não tem o direito comum ao espaço público! Com que direito prefeitos, chefes de polícia, oficiais militares e autoridades do Estado dizem ao povo que têm o direito de determinar o que é público em “nosso” espaço público e quem pode ocupar esse espaço? Quando consideram de seu interesse expulsar-nos (o povo) de qualquer espaço que nós (o povo) decidamos ocupar coletiva e pacificamente, dizem que agem no interesse público (e se referem a leis para prová-lo). Mas nós somos o povo! Onde está “nosso interesse” nisso tudo? E, aliás, não é “nosso” dinheiro que os bancos e financistas usam tão descaradamente para acumular “seus” bônus?

Diante do poder organizado do Partido de Wall Street de dividir e conquistar, o movimento que está emergindo também deve ter como um de seus princípios fundadores não se dividir, nem se desviar de seu curso até que o Partido de Wall Street caia na real — e perceba que o bem comum tem de prevalecer sobre os estreitos interesses do dinheiro — ou de joelhos. Os privilégios das corporações — ter todos os direitos dos indivíduos, sem as responsabilidades de verdadeiros cidadãos — têm de ser eliminados. Os bens públicos, como educação e saúde, têm de ser oferecidos publicamente e acessíveis a todos. Os poderes monopolistas na mídia têm de ser abalados. A compra de eleições tem de ser considerada inconstitucional. A privatização do conhecimento e cultura precisa ser proibida. A liberdade de explorar e despossuir outras pessoas deve ser controlada e, no fim, impedida.

Os estadunidenses acreditam na igualdade. Pesquisas de opinião pública mostram que, para a população (independentemente da filiação partidária), os 20% poderiam ter 30% da riqueza total. O fato de os 20% mais ricos deterem 85% da riqueza é inaceitável. O fato de que a maior parte disso seja controlada pelos 1% mais ricos é totalmente inaceitável. O que o movimento Ocupem Wall Street propõe é que nos comprometamos a reverter esse nível de desigualdade, não só de riqueza ou salários, mas, ainda mais importante, o poder político que essa disparidade gera. O povo estadunidense tem orgulho, com razão, de sua democracia, mas ela está à mercê do poder de corromper do capital. Agora que é dominada por esse poder, o tempo de fazer outra Revolução Americana, como Jefferson sugeriu ser necessário há muito tempo, está se aproximando: e que seja baseada em justiça social, igualdade e cuidado e contato consciente na relação com a natureza.

A luta que se criou — o Povo contra o Partido de Wall Street — é crucial para nosso futuro coletivo. A luta é global, assim como local, em sua natureza. Reúne estudantes confinados a uma luta de vida ou morte contra o poder político no Chile, para criar um sistema de educação gratuito e de qualidade para todos, desmantelando o modelo neoliberal que Pinochet impôs brutalmente. Engloba os ativistas da praça Tahrir, que reconhecem que a queda de Mubarak (como o fim da ditadura de Pinochet) foi apenas o primeiro passo de uma luta para emancipar-se do poder do dinheiro. Inclui os indignados da Espanha, os trabalhadores em greve na Grécia, a oposição militante que surge em todo o mundo, de Londres a Durban, Buenos Aires, Shenzhen e Mumbai. A dominação brutal do grande capital e o poder do dinheiro estão na defensiva em todo lugar.

De que lado estaremos, nós, indivíduos? Que rua vamos ocupar? Só o tempo dirá. Mas o que sabemos é que o tempo é agora. O sistema não está só quebrado e exposto, mas também é incapaz de qualquer resposta a não ser a repressão. Então nós, o povo, não temos outra opção senão lutar pelo direito coletivo a decidir como o sistema será reconstruído e com base em qual modelo. O Partido de Wall Street teve sua vez e fracassou miseravelmente. Como construir uma alternativa em suas ruínas é tanto uma oportunidade inescapável quanto uma obrigação que nenhum de nós pode ou vai querer deixar de lado.


* David Harvey é um dos pensadores marxistas mais influentes da atualidade, reconhecido internacionalmente por seu trabalho de vanguarda na análise geográfica das dinâmicas do capital. É professor de antropologia da pós-graduação da Universidade da Cidade de Nova York (The City University of New York – Cuny) na qual leciona desde 2001. Foi também professor de geografia nas universidades Johns Hopkins e Oxford. Seu livro Condição pós-moderna (Loyola, 1992) foi apontado peloThe Independent como um dos 50 trabalhos mais importantes de não ficção publicados desde a Segunda Guerra Mundial. Seus livros mais recentes, além de O enigma do capital (Boitempo), são: A Companion to Marx’s Capital (Boitempo, no prelo) e O novo imperialismo (São Paulo, Loyola, 2004).

*.* Fonte: OUTRAS PALAVRAS

O Coronel Messias, que comandou a desastrosa operação de despejo do Pinheirinho, recebeu na última semana uma condecoração da Polícia Militar de São Paulo.

 

Trata-se da Medalha Paul Balagny, destinada a personalidades que “tenham se destacado por relevante contribuição às ciências, letras, artes e cultura, resultando em benefício à Policia Militar do Estado de São Paulo”. É o fim da picada.

 

O evento ocorreu dia 9/2, menos de 20 dias após o massacre, no Anhembi.

 

É importante lembrar que ainda existem 5 pessoas desaparecidas desde o despejo, sendo procuradas por seus familiares: Josefa de Fátima Jerônimo / Gilmara Costa do Espírito Santo, Beto (esposo) e Lucas Costa do Espírito / Mateus da Silva.  Há ainda o caso de Ivo Teles dos Santos – 75 anos. Ficou desaparecido por 9 dias, sendo encontrado na UTI de Hospital de São José, com traumatismo craniano, devido a agressões. Está ainda em estado grave.

 

É necessário denunciar este fato vergonhoso.

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Domingo, 22 de janeiro de 2012, 6h da manhã, São José dos Campos (SP). Milhares de homens, mulheres, crianças e idosos moradores da ocupação Pinheirinho são surpreendidos por um cerco formado por helicópteros, carros blindados e mais de 1.800 homens armados da Polícia Militar. Além de terem sido interditadas as saídas da ocupação, foram cortados água, luz e telefone, e a ordem era que famílias se recolhessem para dar início ao processo de retirada. Determinados a resistir — já que a reintegração de posse havia sido suspensa na sexta feira  – os moradores não aceitaram o comando, dando início a uma situação  dramaticamente violenta  que se prolongou durante todo o dia e que teve como resultado famílias desabrigadas, pessoas feridas, detenções e rumores, inclusive, sobre a existência de mortos.

Nos últimos 08 anos, os moradores da ocupação lutam pela sua permanência na área. Ao longo desse tempo, eles buscaram firmar acordos com instâncias governamentais para que fosse promovida a regularização fundiária da comunidade, contando para isto com o fato de que o terreno tem uma dívida  milionária de IPTU com a prefeitura. O terreno pertence à massa falida da empresa Selecta, cujo proprietário é o especulador financeiro Naji Nahas, já investigado e temporariamente preso pela Polícia Federal na operação Satiagraha. No fim da semana, várias foram as idas e vindas judiciais favoráveis e contrárias à reintegração, assim como as tratativas entre governo federal, prefeitura, governo de Estado e parlamentares para encontrar uma saída pacífica para o conflito.Com o processo de negociação em curso e com posicionamentos contraditórios da Justiça, o governo do Estado decide armar uma operação de guerra para encerrar o assunto.

03 de janeiro de 2012, região da Luz,  centro de São Paulo. A Polícia da Militar inicia uma ação de “limpeza” na região denominada pela prefeitura como Cracolândia. Em 14 dias de ação, mais de 103 usuários de drogas e frequentadores da região foram presos pela polícia  com uso da cavalaria, spray de pimenta e muita truculência. Em seguida, mais de trinta prédios foram lacrados e alguns demolidos. Esta região é objeto de um projeto de “revitalização” por parte da prefeitura de São Paulo, que pretende concedê-la “limpinha” para a iniciativa privada construir torres de escritório e moradia e um teatro de ópera e dança no local. Moradores dos imóveis lacrados foram intimados a deixar a área mesmo sem ter para onde ir. Comerciantes que atuam no maior polo de eletroeletrônicos da América Latina, a Santa Efigênia , assim como os moradores que há décadas vivem ali, vêm tentando, desde 2010, bloquear a implantação deste projeto, já que este desconsidera absolutamente suas demandas.

08 de novembro de 2011, 05h10 da manhã, Cidade Universitária, São Paulo.Um policial aponta a arma para uma estudante de braços levantados, a tropa de choque entra no prédio e arromba portas (mesmo depois de a polícia já estar lá dentro), sem deixar ninguém mais entrar (nem a imprensa, diga-se de passagem), nem sair, tudo com muita truculência. Este foi o início do processo de desocupação da Reitoria da Universidade de São Paulo, ocupada por estudantes em protesto à presença da PM no Campus. Os estudantes são surpreendidos por um cerco formado pela tropa de choque e cavalaria, totalizando mais de 300 integrantes da Polícia Militar. Depois de horas de ação violenta, são retirados do prédio e levados presos mais de 73 estudantes. Camburão e helicópteros acompanham a ação.

O que estes três episódios recentes e lamentáveis têm em comum?

Os três eventos envolvem conflitos na gestão e ocupação do território. Os três são situações complexas, que demandariam um conjunto de políticas de curto, médio e longo prazo para serem enfrentados. Os três requerem um esforço enorme de mediação e negociação.
Entretanto, qual é a resposta para esta complexidade conflituosa? A violência, a supressão do diálogo, o acirramento do conflito.

Alguém poderia dizer — mas por quê os ocupantes do Pinheirinho resistiram? Por que não saíram imediatamente, evitando os feridos e as feridas da confrontação?

Porque sabem que, para quem foi “desocupado” ou” lacrado” nestas e outras reintegrações e “limpezas”, sobra a condição de sem-teto. Ou seja, para quem promoveu a reintegração ou a limpeza, o fundamental é ter o local vazio, e não o destino de quem estava lá, muitos menos as razões que levaram aquelas pessoas a estar lá naquela condição e seu enfrentamento e resolução. “Resolver” a questão é simplesmente fazer desaparecer o “problema” da paisagem.

Mais grave ainda, nestas situações a suposta “ilegalidade” ( ocupação de terra/uso de drogas) é motivo suficiente para promover todo e qualquer  tipo de violação de leis e direitos em nome da ordem, em um retrocesso vergonhoso dos avanços da democracia no país.

por Raquel Rolnik

fonte

Souto Maior na AULA DE DEMOCRACIA

Jorge Luiz Souto Maior
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Permitam-me usar meu curto tempo neste “palanque” para lhes relatar um diálogo.
Ontem, uma pessoa que ocupa um lugar bastante confortável na sociedade me indagou: por que você vai aceitar esse convite para comparecer ao ato dos estudantes na avenida Paulista amanhã? Você não é bom para falar às massas e, ademais, essa exposição pode lhe gerar riscos!
O que respondi a ele é o que tenho a dizer a vocês agora.
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Não vou falar às massas. Vou falar a pessoas. Pessoas inteligentes e conscientes. Que possuem, aliás, um tipo muito especial de consciência: uma consciência de classe, acompanhada de um essencial sentimento de solidariedade.
Preciso ir lá para dizer àquelas pessoas que elas possuem meu apoio e também minha solidariedade, pois o Brasil, decididamente, necessita de pessoas que estejam dispostas a lutar por ideais que vão além de seus interesses privados. Somente com essa postura é que poderemos eliminar as desigualdades econômicas, sociais e culturais que reinam, histórica e solenemente, em nosso convívio.
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Precisamos de pessoas que se dispõem, de caras limpas (ou pintadas de rosa), a se posicionar contrariamente às diversas formas de repressão que tendem a se institucionalizar contra as mobilizações populares de natureza reivindicatória.
Além disso, se manifestar-me, clara e abertamente, neste sentido pode trazer-me algum risco (e até pelo fato de você, que é uma pessoa tão esclarecida, ter externado esse receio), é porque realmente muito ainda precisa ser feito para inaugurar uma democracia neste país.
E se é assim, então não há mesmo outro lugar no mundo que eu queira estar amanhã que não seja no ato dos estudantes na Paulista.
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E aqui estou, meus amigos, para expressar sem reticências:
NÃO a todas as formas de repressão à liberdade de expressão, sobretudo para favorecer a produção de idéias e práticas voltadas ao resgate e a evolução da condição humana;
SIM à imediata democratização da USP, iniciando pela eleição direta para Reitor e a retirada de todos os processos, frutos de perseguição política, instaurados contra alunos e servidores.
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Parabéns pelo ato!
Obrigado por me permitirem participar!

Resposta à nota da PM sobre o ATO na Paulista

À Polícia Militar do Estado de São Paulo,
Os alunos em greve da Universidade de São Paulo, bem como aqueles que apóiam suas reivindicações, lamentam o desrespeito à democracia e aos direitos de outras pessoas promovidos pela Polícia Militar de São Paulo, pelos graves transtornos causados à sociedade paulistana.
Estudantes de uma das mais importantes universidades do país assumem o papel crítico que esta deve ter e chamam a atenção da sociedade, que investe no estudo dos jovens, para uma polícia que pratica “atos de incivilidade e atentados contra as liberdades individuais”, como, para citar apenas alguns exemplos:
·         Massacre do Carandiru: a intervenção da PM na Casa de Detenção de São Paulo (ou Carandiru), em outubro de 1992, que tinha como justificativa acalmar uma rebelião de presos, acabou realizando uma verdadeira chacina no local. Foram 111 detentos que perderam a vida;
·         Escândalo da Favela Naval: em 1997, policiais militares de São Paulo aparecem num vídeo torturando e assassinando um civil na Favela Naval, em Diadema. Apesar dos protestos da população e de outras autoridades, pedindo a demissão do Ministro da Segurança, o governador Mario Covas não cedeu, afirmando que não era possível banalizar o afastamento de um membro da PM e declarou: ”Para eu ser lógico, no limite dessa coisa (da hierarquia da responsabilidade pelos crimes) estou eu”;
·         Reação da PM aos ataques do PCC: em 2006, como retaliação aos ataques do PCC contra forças de segurança, a PM matou, entre 12 e 21 de maio, 108 pessoas (segundo dados da Secretaria de Segurança Pública). “Muitas dessas mortes decorreram da reação defensiva legítima de agentes públicos, mas outras tantas apontam para a atuação de grupos de extermínio e de policiais absolutamente fora de controle e comando, com nítido caráter de represália indiscriminada, notadamente, em face da população mais pobre e que habita as periferias das grandes cidades paulistas”, afirmou o desembargador Magalhães Coelho;
·         Matar em 5 anos mais que todas as polícias dos Estados Unidos juntas: segundo relatório da ONG Human Rights Watch, lançado em dezembro de 2009, a polícia do Estado de São Paulo prendeu 348 pessoas para cada morte em 2008. Já a polícia norte-americana prendeu mais de 37.000 pessoas para cada morte no mesmo ano. A proporção entre detenções realizadas e mortes cometidas pela PM de São Paulo encontram-se fora do nível de civilidade esperado para a corporação que supostamente defenderia a sociedade.
·         Orgulhar-se do que deveria ser motivo de vergonha: O Brasão de Armas da PM-SP possui 18 estrelas representativas de marcos históricos da corporação, como a “Revolução” de 1964 (golpe militar) ou a repressão a mobilizações sociais populares (Canudos, Revolta da Chibata, Greve de 1917)
No passado ou no presente desta corporação, que reprime movimentos sociais, discrimina populações mais pobres, mata e age com violência desmedida, não a vemos atuando de maneira inteligente, “buscando a negociação, sempre buscando evitar que os transtornos aos cidadãos fossem ainda maiores.” É de se perguntar quem está defendendo a cidadania, se os estudantes da USP ou uma corporação com um histórico assim.
Ressalta-se que a PM não hesita em usar da força contra os repórteres da imprensa cuja atuação ela diz louvar, conforme visto na Marcha da Maconha, por exemplo. Imagens da própria TV Folha mostram um repórter sendo atingido por jatos de spray de pimenta por um PM e atacado com golpe de cassetete por uma agente da Guarda Civil Metropolitana.
É por isso que, em ato público na Av. Paulista, os estudantes da USP vieram negar a atuação dessa polícia não só no campus da universidade, bem como em toda a sociedade.
Leia a nota da PM:

CARTA AO GOVERNO DO ESTADO DE SP

São Paulo, 28 de novembro de 2011.
Nós, estudantes em greve da Universidade de São Paulo, viemos por meio desta exigir um posicionamento oficial do Governo do Estado de São Paulo acerca das nossas reivindicações:
            – Revogação do convênio da USP com a Secretaria de Segurança Pública. Fora PM! Subordinado a isso, exigimos um plano alternativo de segurança para os campi com as seguintes medidas:
  1. Plano de iluminação no campus;
  2. Política preventiva de segurança;
  3. Abertura do campus à população – possibilitando que a Universidade seja um espaço de aprendizado e convivência para a sociedade como um todo além de proporcionar maior circulação de pessoas;
  4. Abertura de concurso público para outra guarda universitária, que deve ser controlada pela comunidade Universitária. A nova guarda deve ter treinamento baseado nos direitos humanos, visando a prevenção dos problemas de segurança e efetivo feminino para a segurança da mulher;
  5. Mais circulares, com ampliação dos horários de funcionamento a noite e aos fins de semana. Os circulares devem chegar até o Metrô Butantã da linha amarela.
            – Retirada de todos os processos e sindicâncias contra estudantes, funcionários e professores.
            – Pela renúncia do reitor João Grandino Rodas. Convocação de uma estatuinte livre e soberana.
            – Anulação dos inquéritos e processos contra os 73 presos políticos na reintegração de posse da reitoria. Sabendo que esta reivindicação não compete ao poder de deliberação da reitoria da universidade, mas sim do poder judiciário, exigimos um pronunciamento público com um posicionamento oficial do Governo do Estado de São Paulo pela anulação destes processos.
Atenciosamente,

Assembleia Geral dos Estudantes da USP
e-mail para contato: uspemgreve@gmail.com
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CARTA À REITORIA DA USP

São Paulo, 28 de novembro de 2011.
Nós, estudantes em greve da Universidade de São Paulo, viemos por meio desta exigir um posicionamento oficial da reitoria acerca das nossas reivindicações:
            – Revogação do convênio da USP com a Secretaria de Segurança Pública. Fora PM! Subordinado a isso, exigimos um plano alternativo de segurança para os campi com as seguintes medidas:
  1. Plano de iluminação no campus;
  2. Política preventiva de segurança;
  3. Abertura do campus à população – possibilitando que a Universidade seja um espaço de aprendizado e convivência para a sociedade como um todo além de proporcionar maior circulação de pessoas;
  4. Abertura de concurso público para outra guarda universitária, que deve ser controlada pela comunidade Universitária. A nova guarda deve ter treinamento baseado nos direitos humanos, visando a prevenção dos problemas de segurança e efetivo feminino para a segurança da mulher;
  5. Mais circulares, com ampliação dos horários de funcionamento a noite e aos fins de semana. Os circulares devem chegar até o Metrô Butantã da linha amarela.
            – Retirada de todos os processos e sindicâncias contra estudantes, funcionários e professores.
            – Pela renúncia do reitor João Grandino Rodas. Convocação de uma estatuinte livre e soberana.
            – Anulação dos inquéritos e processos contra os 73 presos políticos na reintegração de posse da reitoria. Sabendo que esta reivindicação não compete ao poder de deliberação da reitoria da universidade, mas sim do poder judiciário, exigimos um pronunciamento público com um posicionamento oficial do Governo do Estado de São Paulo pela anulação destes processos.
Atenciosamente,

Assembleia Geral dos Estudantes da USP
e-mail para contato: uspemgreve@gmail.com

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Imagens da TV Folha mostram a violência da polícia. O repórter da TV Félix Lima foi atingido por jatos de spray de pimenta por um PM e por uma agente da Guarda Civil Metropolitana. A agente da GCM ainda atacou o repórter –que portava crachá– com um golpe de cassetete.

Os integrantes da marcha prometem novo manifesto no sábado (28/06 às 14h), contra a repressão policial, no vão do Masp.

Fonte: Folha de São Paulo

COMUNICADO DA OCUPAÇÃO DA SEDE DA COSEAS

Os estudantes de baixa renda que entram na Universidade não têm as condições econômicas para cursa-la. É direito desses estudantes e dever do Estado garantir a sua formação, que passa pela garantia de moradia, alimentação, auxílio transporte. São políticas mínimas que deveriam viabilizar a todo estudante a permanência em seu curso, sem evasão. Mas, na USP, há muito tempo as demandas estudantis vão além das políticas assistenciais concedidas pela Reitoria da USP. Aliás, as que hoje existem são fruto de lutas estudantis no passado.

Atualmente, a Coordenadoria de Assistência Social (COSEAS), é o órgão da Reitoria responsável pela permanência estudantil que seleciona, dentre os estudantes que necessitam, os poucos cujos direitos poderão ser atendidos. A falta de democracia na estrutura de poder da USP já permitiu à Rosa Godoy, atual diretora do COSEAS, acumular os cargos de direção da Escola de Enfermagem da USP e da COSEAS, coisa que não ocorre em nenhum outro órgão público. Hoje, ela permite que Rosa, há 15 anos em seu cargo, não atenda às crescentes reivindicações estudantis, justamente por comprometer-se a aplicar o projeto de educação da Reitoria e do Governo do Estado: uma universidade elitista e distante das demandas sociais dos trabalhadores que a financiam.

Há uma defasagem histórica de falta de vagas no Conjunto Residencial da USP (CRUSP) e há muito tempo seus moradores vêm levantando suas necessidades em reuniões. Rosa Godoy e representantes de moradores se reuniram algumas vezes para negociar, mas o resultado sempre foi promessas sem prazos para cumprimento. Na noite do dia 17 de março de 2010, reunidos em Assembléia, cansados das reuniões sem resultados e da demanda nunca atendida, os moradores votaram pela retomada do térreo do bloco G do CRUSP. O local, que originalmente era utilizado para moradia estudantil, estava funcionando como um órgão administrativo da COSEAS. A ocupação pacífica e suas reivindicações se mantêm até agora.

– Todo ano, são cerca de 500 estudantes que ficam de fora da moradia. Como o processo de seleção demora, muitos ficam provisoriamente em um alojamento precário até sair o resultado. Só nesse início de ano, até o dia 26/02, com apenas duas semanas de aula, foram cerca de 160 inscritos e, destes, cerca de 100 não foram alojados. O espaço da ocupação está sendo hoje usado também como moradia. Não podemos ser desalojados sem garantia de que teremos vagas permanentes. Aumento imediato no número de vagas nos alojamentos e moradias e uma política concreta e crescente de ampliação anual de vagas.

Conforme o termo de acordo da desocupação da Reitoria da USP em 2007, 194 novas vagas de moradia estudantil deveriam ser abertas. Acontece que o bloco A1, há muito tempo em construção, não tem prazo anunciado para ficar pronto e o bloco desalojado pela reitoria que supostamente seria entregue para moradia estudantil também é só boato. Entrega de ambos os blocos até o fim do primeiro semestre de 2010.

– O CRUSP é hoje um local de resistência, que se solidariza aos estudantes secundaristas pobres que assim se utilizam minimamente desse apoio, como o da moradia na sala de um apartamento, ou na divisão de um quarto com seu colega ou mesmo parente, para poder estudar muito e conseguir passar no filtro social do vestibular. De dia ou de noite, fim das expulsões arbitrárias de estudantes da moradia. A expulsão deve passar pela decisão de Assembleia Geral de Moradores.


– É política consciente e deliberada da COSEAS a prática invasiva por parte dos agentes de segurança. São muitos os fatos e documentos que comprovam casos de invasão de privacidade, perseguição e vigilância da vida pessoal e política dos moradores. Os agentes de segurança deveriam garantir a segurança dos moradores contra perigos externos e não estar a serviço de um sistema de controle do comportamento dos cruspianos. Fim do serviço de vigilância contra os moradores e da prática de violência aplicada pela COSEAS. Realocação dos agentes de segurança para outra função. Afastamento de seus cargos das coordenadoras da COSEAS Marília Zalaf, Marisa Luppi e Rosa Godoy, responsáveis pelo “Programa de Segurança”.

– O atual processo seletivo é completamente realizado pela COSEAS, sem transparência, em ritmo lento e com critérios bastante obscuros. Mantendo-se o atual formato, é impossível resolver os problemas citados, seja da gestão ou da entrada e saída de moradores. Autonomia dos estudantes no espaço da moradia e participação de moradores nos processos seletivos para os programas de permanência.

– Com os poucos funcionários, a super-exploração do trabalho nos restaurantes da COSEAS, desde os terceirizados aos concursados, leva os trabalhadores a se invalidarem fisicamente em poucos anos de trabalho. Uma das conquistas da greve e ocupação de 2007 foi a ampliação da alimentação nos restaurantes universitários aos finais de semana. Obviamente, para que a reivindicação fosse atendida, seria necessária a contratação de mais funcionários, o que não ocorreu. Isso tem aumentado o ritmo de trabalho, tornando o atendimento ainda mais precarizado. Contratação de mais funcionários e melhoria nas condições desumanas de trabalho e atendimento da COSEAS.

– A “Bolsa Trabalho” que existia anteriormente correspondia a um salário mínimo e seu reajuste ocorria com base na variação deste. Já as bolsas “Aprender com Cultura e Extensão” pagam o valor de R$300,00 fixos. Assim, o aumento de 600 “Bolsas Trabalho” para 900 bolsas “Aprender com Cultura e Extensão”, na realidade, configuram uma redução de direitos e não uma ampliação destes, além de substituir a necessária contratação de funcionários públicos por mão-de-obra dos estudantes em serviços não necessariamente ligados à sua atividade acadêmica. Substituição das “bolsas-trabalho” por uma bolsa de estudos definida em base a critérios sócio-econômicos e sem contrapartida.

Todas as reivindicações levantadas foram construídas e deliberadas a partir de fóruns e organismos legítimos de representação dos moradores. O uso de violência deliberada constitui criminalização do movimento social e significa cerceamento das liberdades democráticas de manifestação e organização.

São Paulo, 22 de março de 2010.

A Ocupação

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Assembléia Constituinte não é incluída no acordo sobre a restituição de Zelaya

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Atualização, 19 de outubro:: A repressão continua e o diálogo congela

No último dia 15 de outubro, se chegou ao fim o prazo dado pelo presidente legítimo de Honduras Manuel Zelaya para a mesa de diálogo entre representantes de Micheletti e de Zelaya. Entretanto ainda não há um acordo final de todos os pontos propostos pelo conhecido “Acordo de San José” baseado nas negociações na Costa Rica no início do golpe. O ponto que ainda não chegou num acordo é o sexto que fala justamente sobre o retorno de Zelaya ao poder. Micheletti ainda não aceitou a proposta e mesmo com prazo vencido o diálogo continua. O que está na mesa é a proposta de Zelaya que o Parlamento decida sobre sua restituição.

Dias antes, Juan Barahona, representante na mesa de diálogo da Frente Nacional de Resistência contra o Golpe de Estado, se retirou da mesa pois não aceitaria um acordo que não contemplasse a eleição de uma Assembléia Constituinte. Para a Frente, este ponto também é inegociável. No dia 16 de Outubro a Frente lançou um comunicado que diz: “Nenhum diálogo pode ser feito se uma parte esta amordaçada com uma pistola na cabeça. Neste caso, o regime de facto procura o diálogo quando: a) Não publicaram no Diário Oficial a revogação do estado de sítio, de modo que este permanece em vigor; b) continuam sendo mortos companheiros e companheiras por contratados a serviço do golpe; c) estão processando dezenas de companheiros campesinos despejados do INA e muitos deles estão presos; d) dezoito companheiros/as indígenas perseguidos pela ditadura tiveram que buscar asilo por suas vidas na Embaixada da Guatemala; e) permanecem fechadas as estações de televisão e rádio opostas ao golpismo e jornalistas independentes seguem sendo perseguidos e, f) continua o cerco militar e o esolamento sobre o presidente Zelaya e as pessoas que o acompanham dentro da embaixada do Brasil, de tal forma que permitaram o contato com seus representantes e com a Frente por apenas três horas antes de iniciar o diálogo. Enquanto essas condições continuarem, a Frente Nacional de Resistência contra o Golpe de Estado não poderá participar com seus representantes neste mal chamado ‘diálogo’.”

Leia o texto na íntegra

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Bombas de gás para iniciar o diálogo

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Centenas de policiais e militares dispersaram no dia 7 de outubro com cassetetes e com bombas de gás lacrimogêneo o protesto pacífico da Resistência que tem se concentrado 102 dias consecutivos para exigir a restituição de Manuel Zelaya e a convocatória de uma Assembléia Constituinte. A repressão começou quando a Frente de Resistência contra o Golpe de Estado tinha apenas caminhado 30 metros depois de duas horas de concentração em frente da Embaixada dos EUA. A resistência se dirigia para a embaixada da Guatemala onde se abrigam desde o dia anterior 12 membros do Conselho de Organizações Populares e Indígenas de Honduras (COPINH) depois de serem ameaçados de morte pelo governo golpista.

O Exército e a polícia apontaram as bombas para o cortpo dos manifestantes causando lesões a vários companheiros da Frente, e inclusive a um jornalista uruguaio. A violência policial começou minutos depois da inauguração da Mesa de Diálogo impulsionada pela OEA. O encarregado da abertura, o Chanceler do governo golpista, Carlos López Contreras, declarou que o país já tinha voltado ao normal e que não havia mais repressão. A reunião da OEA tem o propósito de impulsionar um processo de diálogo entre os diferentes atores da sociedade hondurenha e por isso participam mesa: os embaixadores da OEA, agentes do governo golpista, dois acessores do presidente Manuel Zelaya e o coordenador da Frente de Resistência Contra o Golpe de Estado, Juan Barahona. A resistência decidiu participar da mesa para fazer escutar sua voz embora considere que não é possível acontecer nenhum processo de diálogo enquanto continue a repressão, a cidade continue militarizada e os presos políticos não sejam libertados.

Barahona e a OEA exigiram a assinatura dos acordos de San José que têm como primeiro ponto a restituição de Zelaya. Além disso, para a OEA se trata de um passo fundamental para que a comunidade internacional reconheça as próximas eleições. Para a Frente, se considera imprescindível que Zelaya volte ao poder, pois do contrário se estabeleceriam os golpes de estado como maneira de parar os processos sociais na América Latina, e acrescentou que embora se assinem os acordos, a resistência “nunca abrirá mão da Assembléia Constituinte”. Do outro lado, o presidente golpista Roberto Micheletti assegurou que não aceitará a restituição de Zelaya, e assegurou que as eleições marcadas no dia 29 de novembro aconteceram a não ser que “invadam” Honduras. Enquanto isso, nas colônias populares centenas de pessoas saíram às ruas ao anoitecer para expressar seu apoio ao presidente Zelaya.

Mais repressão e novas leis para apagar vozes críticas

A resistência continua e a ditadura se enfraquece!

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A resistência contra o golpe militar em Honduras continua, apesar da ainda maior repressão dos últimos dias. (veja fotos: I II III). Trinta e oito camponeses que foram presos na sede do INA (Instituto Nacional Agrário de Honduras) na semana passada, iniciaram uma greve de fome para serem reconhecidos como presos políticos e como forma de resistir à ditadura de Micheletti. Atividades culturais e assembléias seguem como forma de resistência já que sair às ruas tem sido quase impossível depois do estado de sítio decretado no dia 26 de setembro. Entretanto, depois de 10 dias, na última segunda feira 5 de outubro, o governo golpista teve de ceder e suspendeu o estado de sítio, mas deixou como saldo duas emissoras de rádio com equipamentos roubados, dezenas ou centenas de presos políticos a mais, documentos sobre reforma agrária roubados, e mais gente assassinada – nada disso “volta ao normal” mesmo com o fim do estado de sítio.

Enquanto isso a resistência popular permanece firme, mesmo com perdas irreparáveis. A Frente Nacional contra o Golpe de Estado decidiu que irá manter três ações para os próximos dias: 1. Independente de Zelaya, a Frente levará adiante o processo para a Assembléia Constituinte, promovendo debates, eventos educativos e mobilização para construir a nova constituição; 2. Irá boicotar as empresas que estão apoiando o Golpe; 3. Continuará com as ações de limpeza das propagandas eleitorais espalhadas pelas cidades já que a resistência é contra ter as eleições com uma ditadura no país (mesma posição da comunidade internacional que já avisou que não irá reconhecer as eleições se forem feitas desta forma).

A classe política negocia uma saída para a questão do poder. Micheletti, além de suspender o estado de sítio, está aceitando negociar com a OEA, levando em conta a restituição de Zelaya, que faz parte do acordo proposto pelo presidente da Costa Rica, Oscar Arias, o famoso ‘Acordo de San Jose’. O presidente golpista retirou o prazo dado para o Brasil entregar Zelaya, que permanece abrigado na embaixada, e disse que vai punir quem tirou Zelaya do país, numa clara contradição do governo golpista, tentando manobrar para que saia impune dos crimes que cometeu. Micheletti e os apoiadores do golpe já estão bastante acuados e divididos diante da pressão popular e internacional. Entretanto, a Frente de Resistência contra o Golpe de Estado lançou um comunicado apontando condições importantes para ter uma diálogo sério e que realmente considere as reinvidicações do povo hondurenho.

No comunicado a Frente coloca que sua posição de que se continua a repressão que vem acontecendo desde 28 de Junho, violentando direitos constituicionais e direitos humanos fundamentais, não haverá um ambiente propício para que este diálogo seja válido. A Frente também exige a liberdade imediata para todos/as Presos/as Políticos detidos pela ditadura. E demandam que o diálogo deve ter como resultados: 1. A saída do poder da ditadura militar-civil; 2. A restituição do Presidente Manuel Zelaya ao seu cargo sem condições, de forma imediata e segura; 3. Definição de mecanismos para a convocatória da Assembléia Nacional Constituinte democrática, inclussiva e participativa.

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Ditadura em Honduras: dezenas de mortos e mais de 4000 presos/as

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A repressão em Honduras promovida pelo governo golpista continua intensa contra a população que se manifesta contra o golpe militar do dia 28 de junho, especialmente depois da entrada de Zelaya no país. Na terça-feira, o Instituto Nacional Agrário de Honduras (INA) foi invadido por mais de mil militares e policiais. 70 camponeses/as que foram para a capital manifestar contra o golpe e ocupavam o INA foram presos. Depois das prisões, os militares roubaram diversos documentos de processos de Reforma Agrária que beneficiavam agricultores sem-terra. Estes documentos estavam sob a guarda dos trabalhadores do Instituto e camponeses há 87 dias e, uma semana atrás, dirigentes sindicais alertaram em uma entrevista do perigo de uma intervenção militar e do roubo dos documentos (ouça aqui). Os processo estavam em fase de conclusão quando ocorreu o golpe no dia 28 de Junho. Outro local que sofre ameaça de invasão é a Universidade Pedagógica, onde diversos manifestantes estão hospedados há meses. A polícia mantém o local cercado há dias e agora com o novo decreto que restringe as liberdades constitucionais o perigo de invasão é iminente.

Frente Nacional Contra o Golpe de Estado, entretanto, continua firme na posição de resistir à ditadura de Micheletti e, mesmo com toda repressão, sai às ruas todos os dias em manifestações contra o golpe. No mesmo dia do decreto que elimina os direitos de manifestação, reunião e comunicação e permite a detenção arbitrária de qualquer pessoa, a Frente escreve um comunicado em que chama o digno povo hondurenho a não ter medo das ações ilegais do regime golpista, que tenta paralisar a luta popular e continuar com a exploração e humilhação que eles têm submetido o povo hondurenho. Também reafirma o compromisso na direção de refundar Honduras e se libertar das oligarquias que tem oprimido historicamente o povo hondurenho.

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Governo golpista intensifica repressão!

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Desde a chegada de Manuel Zelaya a Honduras no dia 21 de setembro, o governo golpista de Roberto Micheleti intensificou a repressão contra manifestantes que tentam resistir ao golpe que começou no dia 28 de junho. A embaixada brasileira, que abriga Zelaya, está sitiada e sendo atacada com bombas de gás, balas de borracha etc. Pelo menos mais duas pessoas morreram nos últimos dias e o número de mortos desde o golpe já soma mais de 100 pessoas.

Na primeira semana após o retorno de Zelaya ao país, centenas de milhares de pessoas sairam às ruas na capital ignorando a ordem de estado de sítio dada pelo governo golpista. Também houve manifestações no interior do país. Na manhã da terça-feira (22/09), a embaixada brasileira foi atacada pelo exército e a polícia. Eles dispersaram os manifestantes e cercaram a embaixada, isolando-a. Nesse mesmo dia pelo menos 130 pessoas foram presas. O governo golpista está usando um estádio de futebol para prendê-los. Desde então todos os presos estão sendo encaminhados para lá, um cenário que lembra a ditadura do Chile de Pinochet.

A água e a energia foram cortadas na embaixada brasileira. No momento há energia gerada por geradores (levados por simpatizantes) e a entrada de comida é restrita e controloda pelos militares. Foi encontrado um aparelho que bloqueia meios de comunicação (celulares e rádios) implantado dentro da embaixada. Além disso, todos os dias, as 85 pessoas que estão confinadas no local estão sendo expostas a armas sonoras conhecidas como LRAD-X. Elas emitem sons de até 151 decibéis; uma pessoa pode ter perda sonora se for exposta a sons de 85 decibéis para cima. Outro ataque que foi investigado e comprovado pela ONU foi o uso de gases tóxicos contra as pessoas dentro da embaixada.

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Zelaya retorna à Honduras e se refugia na embaixada brasileira

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Na manhã desta segunda-feira (21/09), o presidente legítimo de Honduras Manuel Zelaya chegou em Tegucigalpa (capital), e está refugiado na embaixada brasileira. Zelaya viajou por 2 dias com 4 homens por terra, cruzando montanhas e rios até chegar na embaixada. No dia 28 de Junho Zelaya foi expulso do país pelos militares que estabeleceram uma ditadura violenta comandada pelo presidente golpista Micheletti, as forças armadas e a elite do país. Desde então o povo hondurenho vem manifestando todos os dias contra o golpe, que já contam com mais de 85 dias de protestos e resistência.

Na medida em que a notícia foi sendo confirmada e se espalhando, a populacão saiu às ruas e foi encontrar o presidente na embaixada brasileira. A Guarda Nacional cercou a embaixada tentando conter a manifestacão. À tarde já estavam cerca de 5 mil pessoas no local e pessoas de todos os lugares do país já estão a caminho. Zelaya pediu ao governo golpista que devolva o governo de forma pacífica. Durante todo o dia um helicóptero do servico secreto do governo golpista sobrevoou a embaixada e há um número grande de soldados e policiais que chegaram a reprimir a população em alguns momentos. NarcoNews, site de jornalismo investigativo com uma equipe de cobertura em Honduras desde os primeiros dias do golpe, noticiou que o sinal de celular e a conexão de internet foram cortados na capital durante parte da manhã.

Atualizações:: Na manhã desta terça-feira, a polícia e exército hondurenhos atacaram os manifestantes que estavam próximos à embaixada do Brasil. Os aeroportos de Honduras também foram fechados pelo governo golpista de Roberto Michelleti. O governo golpista cortou água e energia da embaixada e está impedindo a entrada de alimentos. Há relatos de pelo menos duas pessoas mortas, dezenas de feridos e presos.

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Editoriais anteriores:: Honduras – O Eterno Retorno até quando?! (30/06)Honduras – o eterno retorno até quando? (05/07) |Golpe em Honduras, até quando? (18/07)Nome aos gorilas! (05/08)70 dias de resistência popular contra o Golpe em Honduras (05/09)

Mais informações (em espanhol):: CMI HondurasTeleSurRebelion.orgVia Campesina

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FONTE: Centro de Mídia Independente

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da redação Revista Fórum
O asilo político concedido a Manuel Zelaya pela embaixada brasileira em Honduras tem causado grande alvoroço na imprensa nacional e internacional. Apesar dos cortes na energia e na internet realizados pelo governo golpista de Micheletti em todo o país, diversas transmissoras radiofônicas encontraram um caminho para continuarem a fazer suas transmissões e a denunciar o governo golpista e as arbitrariedades cometidas por ele: a internet.

A Radio Globo Honduras tem sido um dos principais meios de comunicação do país que tem informado, pela rede, o passo-a-passo da situação diplomática desde que Zelaya entrou em seu país de origem e se asilou na embaixada brasileira.

Outro canal, que tem sido acessado internacionalmente desde o primeiro dia do golpe é o TelesurTV, que hoje transmitiu a 64ª sessão da Assembleia Geral da ONU, em que o presidente Lula se destacou por pedir às Nações Unidas que investiguem atentados aos direitos humanos em Honduras. Lula ainda afirmou que “a comunidade internacional exige que Zelaya reassuma imediatamente a presidência de seu país e deve estar atenta à inviolabilidade da missão diplomática brasileira na capital hondurenha”.

Confira abaixo uma lista de veículos de comunicação alternativos que estão cobrindo a situação em Honduras:

Sites:
Centro de Medios Independentes

TeleSur

Kaos em La Red

Honduras Laboral

Revistazo

Aporrea

Radios pela internet

Radio Globo Honduras

Radio Es Lo de Menos

Associacion de Radios y Programas Participativos de El Salvador

Blogs:

Voces em Contacto

Agregador de notícias

Fonte: Revista Fórum

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A hora dos “ses” em Honduras

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A atitude de Zelaya jogou a crise hondurenha, latino-americana e mundial (porque os Estados Unidos e a União Européia também estão envolvidos, pelo menos na moldura da situação) na hora incerta dos “ses”. Uma coisa é certa: de ambos os lados da contenda devem estar se fazendo as contas sobre os apoios e os contra-apoios no caso desta ou daquela decisão.

por Flávio Aguiar*

A “decisão decidida” do presidente hondurenho Manuel Zelaya, ao voltar ao país e se refugiar na embaixada brasileira deixou todo mundo perplexo. Todo mundo? Mais ou menos. Zelaya deu uma declaração diplomática dizendo que o Brasil não fora informado sobre seu plano, o que certamente evita melindres oficiais. Mas é difícil imaginar que nenhum tipo de sinal tenha sido passado a pelo menos algum assessor de Lula antes do acontecido. Seria uma loucura Zelaya ver-se simplesmente no olho da rua, com a multidão sim a seu favor, mas com os falcões da ditadura nos seus calcanhares, provavelmente prontos para “suicidá-lo”.

A atitude de Zelaya jogou a crise hondurenha, latino-americana e mundial (porque os Estados Unidos e a União Européia também estão envolvidos, pelo menos na moldura da situação) na hora incerta dos “ses”. Se isso acontecer, se aquilo vier a se passar, se aquilo outro ainda ocorrer, etc.
Uma coisa é certa: de ambos os lados da contenda devem estar se fazendo as contas sobre os apoios e os contra-apoios no caso desta ou daquela decisão. No lado golpista, a aposta óbvia é a de que os falcões norte-americanos vão prevalecer sobre a retórica do presidente (a quem os próprios partidários da ditadura chamam de “el negrito”), ajudados pelas declarações algo patéticas (ou às vezes patetas mesmo) de Hillary Clinton.

Outra coisa é certa: se isso acontecer, o presidente Obama estará perdendo terreno na sua luta pela implantação do novo sistema de saúde universalizado nos Estados Unidos. Esperemos que, pelo menos, seus estrategistas políticos façam essas contas direito. E os Estados Unidos continuarão a perder terreno na América Latina.

Para a União Européia, Honduras é muito longe, com a exceção talvez da Espanha. Mas o restante da América Latina não é. Se a linha dura golpista prevalecer, sem uma contrapartida concreta que procure impedir isso, a União Européia também perderá terreno na América Latina.

Entre os falcões hondurenhos haverá quem esteja fazendo já os planos para a invasão da Embaixada Brasileira e para enfrentar as conseqüências. Se isso acontecer, além das medidas que deverão ser tomadas, com o rompimento de relações entre os dois países, a culpa será jogada sobre a inércia do governo norte-americano, com novas conseqüências pesadas para o lado de Washington.

Se Zelaya prevalecer, seja em que condição for, até mesmo a de um presidente sem poderes (como na crise de 1961, no Brasil, quando os golpistas tentaram impedir a volta e a posse de João Goulart, e tudo acabou no parlamentarismo provisório), o Brasil e o presidente Lula sairão tremendamente reforçados, não só na América Latina, mas também na ONU, no G-20 e em quanto mais G-qualquer algarismo houver. Dizer que o Brasil comprou desnecessariamente uma briga com Honduras é jogar areia nos próprios olhos, pois significa esquecer o novo papel que o Brasil está assumindo pelo mundo a fora. A BBC/TV tem uma publicidade em que eles dão a palavra, numa montagem que simula um diálogo, aos “políticos mais poderosos do mundo”. Lá estão até George Bush e Barack Obama; o único latino-americano que aparece é o Presidente Lula.

Mas o “se” mais importante está sendo jogado em Honduras. Trata-se de se saber se essa crise, num país há muitos anos inteiramente dominado por políticas conservadoras de extrema-direita, provocará ou não um reforço das organizações populares hondurenhas, e se jogará para uma abertura em direção a novas políticas progressistas frações da classe média, da burguesia, das Forças Armadas e do clero.

Os golpistas hoje dominam a mídia hondurenha; também é de se perguntar se os desdobramentos dessa crise criarão a consciência da necessidade de uma mídia alternativa no país. Se isso acontecer – as forças progressistas se reforçarem – a aposta num retorno mesmo que mitigado de Zelaya cresce em importância, até porque um futuro governo (em que ele e seus aliados diretos serão parte decisiva, mesmo que o então ex-presidente não o encabece diretamente) terá respaldo e pressão popular para seguir a via da inclusão social.

*Flávio Aguiar é correspondente internacional da Carta Maior

Fonte: Carta Maior

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A vocação “democrata” da Globo

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por Luiz Carlos Azenha

O bicho pode mudar de pele, mas não perde vícios de origem. É importante relembrar qual é o DNA das Organizações Globo para entender as posições que ela assume de forma escancarada, através de seus porta-vozes, no caso de Honduras.

Defender a elite hondurenha que está por trás do golpe de estado naquele país é o equivalente a defender o regime dos afrikâners na África do Sul.

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Basta substituir os “negros” sul africanos pelos indígenas hondurenhos, cuja mão-de-obra barata é oferecida de graça como forma de atrair “maquiladoras” estrangeiras, que se dão bem explorando trabalho semi-escravo.

Que a elite brasileira, do Leblon à barra da Tijuca, se junte aos afrikâners centro-americanos diz muito mais sobre nós do que sobre a crise em Honduras. Mas, se a gente relembrar a História, entende:

editorial de “O Globo”, em 02/04/1964

Vive a Nação dias gloriosos. Porque souberam unir-se todos os patriotas, independentemente de vinculações políticas, simpatias ou opinião sobre problemas isolados, para salvar o que é essencial: a democracia, a lei e a ordem. Graças à decisão e ao heroísmo das Forças Armadas, que obedientes a seus chefes demonstraram a falta de visão dos que tentavam destruir a hierarquia e a disciplina, o Brasil livrou-se do Governo irresponsável, que insistia em arrastá-lo para rumos contrários à sua vocação e tradições.

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Como dizíamos, no editorial de anteontem, a legalidade não poderia ser a garantia da subversão, a escora dos agitadores, o anteparo da desordem. Em nome da legalidade, não seria legítimo admitir o assassínio das instituições, como se vinha fazendo, diante da Nação horrorizada.

Agora, o Congresso dará o remédio constitucional à situação existente, para que o País continue sua marcha em direção a seu grande destino, sem que os direitos individuais sejam afetados, sem que as liberdades públicas desapareçam, sem que o poder do Estado volte a ser usado em favor da desordem, da indisciplina e de tudo aquilo que nos estava a levar à anarquia e ao comunismo.

Poderemos, desde hoje, encarar o futuro confiantemente, certos, enfim, de que todos os nossos problemas terão soluções, pois os negócios públicos não mais serão geridos com má-fé, demagogia e insensatez.

Salvos da comunização que celeremente se preparava, os brasileiros devem agradecer aos bravos militares, que os protegeram de seus inimigos. Devemos felicitar-nos porque as Forças Armadas, fiéis ao dispositivo constitucional que as obriga a defender a Pátria e a garantir os poderes constitucionais, a lei e a ordem, não confundiram a sua relevante missão com a servil obediência ao Chefe de apenas um daqueles poderes, o Executivo.

As Forças Armadas, diz o Art. 176 da Carta Magna, “são instituições permanentes, organizadas com base na hierarquia e na disciplina, sob a autoridade do Presidente da República E DENTRO DOS LIMITES DA LEI.”

No momento em que o Sr. João Goulart ignorou a hierarquia e desprezou a disciplina de um dos ramos das Forças Armadas, a Marinha de Guerra, saiu dos limites da lei, perdendo, conseqüentemente, o direito a ser considerado como um símbolo da legalidade, assim como as condições indispensáveis à Chefia da Nação e ao Comando das corporações militares. Sua presença e suas palavras na reunião realizada no Automóvel Clube, vincularam-no, definitivamente, aos adversários da democracia e da lei.

Atendendo aos anseios nacionais, de paz, tranqüilidade e progresso, impossibilitados, nos últimos tempos, pela ação subversiva orientada pelo Palácio do Planalto, as Forças Armadas chamaram a si a tarefa de restaurar a Nação na integridade de seus direitos, livrando-os do amargo fim que lhe estava reservado pelos vermelhos que haviam envolvido o Executivo Federal.

Este não foi um movimento partidário. Dele participaram todos os setores conscientes da vida política brasileira, pois a ninguém escapava o significado das manobras presidenciais. Aliaram-se os mais ilustres líderes políticos, os mais respeitados Governadores, com o mesmo intuito redentor que animou as Forças Armadas. Era a sorte da democracia no Brasil que estava em jogo.

A esses líderes civis devemos, igualmente, externar a gratidão de nosso povo. Mas, por isto que nacional, na mais ampla acepção da palavra, o movimento vitorioso não pertence a ninguém. É da Pátria, do Povo e do Regime. Não foi contra qualquer reivindicação popular, contra qualquer idéia que, enquadrada dentro dos princípios constitucionais, objetive o bem do povo e o progresso do País.

Se os banidos, para intrigarem os brasileiros com seus líderes e com os chefes militares, afirmarem o contrário, estarão mentindo, estarão, como sempre, procurando engodar as massas trabalhadoras, que não lhes devem dar ouvidos. Confiamos em que o Congresso votará, rapidamente, as medidas reclamadas para que se inicie no Brasil uma época de justiça e harmonia social. Mais uma vez, o povo brasileiro foi socorrido pela Providência Divina, que lhe permitiu superar a grave crise, sem maiores sofrimentos e luto. Sejamos dignos de tão grande favor.

Fonte: Vi o Mundo

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Mais em:  http://www.muitasbocasnotrombone.blogspot.com/